O que eu não disse

"Me diz alguma coisa", ele disse, olhando para as próprias mãos. Por que ele não me olhava mais no olho? "Estou desistindo de nós", foi a frase dita antes, que ainda ecoava na minha cabeça, então é você que está desistindo? Perguntei-me, cansado. O quarto parecia menor, sufocante, esmagador. O instinto era de correr, sobrevivência, mas algo ainda me prendia ali e eu sabia muito bem o que era.


Deve ser fácil responsabilizar o outro pelas falhas de um relacionamento. Eu deveria saber, eu já tinha tentado, sem sucesso. Meu orgulho ferido não ganhou do meu auto criticismo. Para falar a verdade, olhando hoje, não havia vitória alguma para contar naqueles dias. Era uma sucessão de derrotas que pesavam sobre mim como a gravidade, me mantendo em um chão frio, inóspito.

Ele exigia minha atenção, reivindicava uma solução. O que diabos eu sabia? O que poderia fazer? Eu me perguntava. "Isso deveria ser mais fácil", refletia. Mas quando se tratava de nós nada era fácil, pelo menos não para mim, sempre tentando satisfazer as expectativas de quem não se contentava com a realidade, a altos custos, apenas para manter a paz, porque odeio conflitos. "Faça isso por ele, será mais fácil", me consolava.

Até que eu não tinha mais o que dar de mim para fazer aquilo funcionar. E dessa vez, tudo que ele me pedia eram palavras, talvez um meio-termo na perspectiva dele. "Vou facilitar as coisas para você", talvez fosse o pensamento dele. Mas eu não consegui pronunciar, apenas deixei que ele fosse embora. O que eu não disse é que eu não deveria convencê-lo a ficar, lutar por nós. "Eu só queria que você ficasse se você quisesse ficar por conta própria", murmurei depois de ouvir o som da porta ao fechar.

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