Ninguém em casa

O silêncio agora preenche esses cômodos, que antes abrigavam nossas vozes. A louça em cima da mesa, na pia, evidenciando mais uma de nossas inúmeras negligencias, mas que mal existe em deixá-las lá, a esperar, mais ainda? O vento entra pela janela quebrada, aquela que você ficou de consertar há quatro meses, balança a persiana, faz voar páginas importantes que eu tinha deixado sobre a mesa do escritório, que fica em frente a janela.


Eu deveria ter colocado elas na gaveta, outro erro. Não tem sido fácil o último ano. Mas a imagem dessa casa agora, sem ninguém, evidencia isso e, ao mesmo tempo, traz uma paz desconcertante, que eu não queria admitir, que eu não vou, jamais, admitir, pois eu também escolho o silêncio. Nossos CDs e nossos livros, eles juntam a poeira dos dias passados sem que eles fossem tocados.

Nós nunca mais ouvimos música nessa casa, nós nunca mais deixamos nenhuma história entrar e nos levar para outro lugar, bem aqui, tão longe de tanta confusão. Mas a casa está aqui. Paredes de tijolo vermelho exposto, ao contrário de tudo que sentimos. Ladrilhos coloridos na parede da cozinha, para contrastar com nosso tom escuro, dos dias amargos, duros.

Os jarros vazios, do lado de fora, no parapeito da janela, sem vida, porque desistimos de cultivar, cuidar, deixamos morrer, tanta coisa morreu, desde que começamos essa prática. E as flores de plástico foram as únicas que restaram, mas elas não enganam, basta um olhar para saber que são artificiais, um artifício que não ilude, porque a verdade é tão latente em seu silêncio, você apenas  a sente dentro de você quando ela sussurra que não há ninguém.

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