Eu costumava te conhecer

O sol quase se pondo. Eu dando uma pausa do trabalho. Sentado em dos bancos quentes da praça em um ponto alto do Centro, de onde posso ver quase toda a cidade. Você vira a esquina, tão inesperado e real quanto a vida pode ser. Eu olho uma vez e penso "alguém familiar", em seguida me pergunto como vamos nos cumprimentar, à distância, como dois conhecidos ou trocar um abraço, como dois velhos amigos.


Você caminha em minha direção, respondendo meu questionamento. Basta um olhar mais próximo, ignorando alguns anos, parece tudo tão habitual. Seu cheiro está diferente, mas eu sei que se eu cheirasse mais ainda encontraria aquele conhecido perfume. Eu não toquei seus lábios, mas eu me lembro deles, lembro-me deles com gosto de hálito matinal ou com sabor da primeira xícara de café. E seu abraço está como deixei, acolhedor, um pouco hesitante, talvez por falta de prática, já faz alguns anos.

Parece que foi em outra vida, há tanto tempo que não lembro mais o que nos separou e eu certamente não iria te pedir que me lembrasse. Fiquei feliz de ter guardado somente o que foi bom, deixado qualquer adversidade do passado se dissolver no tempo. Coisa engraçada o primeiro amor, mesmo depois de um tempo longe, depois de adquirir alguma experiência, ele ainda tem sabor de novo, as memórias do passado ainda têm o gosto da novidade daqueles dias felizes de descoberta.

Conversar nunca foi um problema para nós, mesmo quando não tínhamos o que dizer. Agora temos tanto, uma vida inteira se passou para nós e precisaríamos de outra para voltarmos a saber tudo um do outro, como costumava ser, será que conseguiríamos? Mas é bom saber que eu costumava te conhecer e que se eu olhar bem de perto, nos seus olhos, sei que ainda vou encontrar aquele que conheço, guardado e protegido pelo tempo, como fazemos com o melhor de nós.

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