Aconteceu em agosto

Já faz um tempo desde que senti algo por alguém. Começo a me perguntar se ainda sou capaz de sentir. Ultimamente, eu admito que pareço ter entregado os pontos, preenchido meu tempo com música e livros. Eu nunca saio da casa, tenho memorizado as imperfeições nas paredes, comparando-as com as minhas, me questionando sobre a ideia de que o futuro seja igual ao presente.


Eu acho que não me importo. Alguns dias estou mais irritadiço do que o de costume, mas ainda reservo algumas doses de bom humor. Suponho que não esteja mais solitário do que sempre estive, mesmo quando estava com alguém, sempre pensando que algumas partes de mim nunca deixarão de se sentir sozinhas e que isso não é necessariamente ruim, talvez seja alguma forma de preservação.

Afinal eu sou daqueles que podem se perder por completo no outro. Ou eu era. Como eu disse antes, já faz um tempo desde que senti algo por alguém. Estou certo de que aqueles que passaram pela minha vida fossem bons mais do que o suficiente para que eu os entregasse minha afeição, mas não é por mérito que costumamos fazer isso, existe algo de misterioso na forma como dispomos nossos sentimentos.

Não é como se eu não sentisse nada e eu estou bem, mas eu não consigo deixar de sentir a inerente insatisfação humana, aquele sentimento de curiosidade pelo desconhecido, que me leva a pensar sobre o que aconteceu em agosto, que agora parece que foi há milhares de anos, e faz com que eu me pergunte se algum dia vai acontecer novamente.

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