Enfim só

Depois de tanto tempo, agora tenho uma nova rotina a qual devo me acostumar. Sentado na única cadeira que restou, eu olho a minha volta, o apartamento de dois quartos está quase sem móveis, parece que fui roubado, talvez sim, de certa forma. No fim eu estava tão exausto que não tinha energias para brigar por mobília, apenas dei de ombros quando ele saiu arrastando tudo que pôde do lugar que um dia chamamos de lar.


Eu tenho tentado novas rotinas e algumas dessas experiências têm sido recompensadoras. Outro dia eu limpei o apartamento e fiquei satisfeito quando percebi que ninguém arruinaria meu trabalho cinco minutos depois. Pequenas vitórias, é o que eu digo. Tenho tomado café na varanda agora, observando o bairro, descobrindo vida além das paredes de reboco desgastado. Às vezes, sinto prazer no silêncio que toma conta daqui.

Rearranjei os móveis restantes, tentando preencher mais o ambiente, "meu espaço", comecei a pensar. Mas não é só em casa que tenho praticado esse nova solidão, outro dia fui ao cinema e depois fui jantar. Foi quase normal. Eu disse aos meus amigos que estou ficando louco, eles me disseram que eu preciso disso. Então aqui estou tentando outra coisa nova, falando sobre mim para um completo estranho.

O especialista disse que eu não sou tão ruim nisso como eu acho que sou, então eu acho que estou indo bem, um dia de cada vez. Outro dia abri uma garrada de vinho e bebi sozinho ouvindo músicas tristes, mas eu não chorei e já faz um tempo que não choro. Para falar a verdade, eu até sorri um pouco, comigo mesmo, quando respirei fundo e disse "enfim só" para mim mesmo. A sensação foi como se eu tivesse acabado de voltar de um mergulho, se isso faz algum sentido.

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