Ser solteiro

Outro dia lembrei-me de uma brincadeira que fazia quando era criança. Nela, você escrevia os nomes de três cidades, três opções de número de filhos que gostaria de ter, os nomes de três interesses afetivos, status social (rico, classe média, pobre) e escolhia a idade que achava que iria casar. A partir daí, você conta o número da idade que escolheu até que pelo menos um item de cada opção seja escolhido e você tenha o resultado, como: Vou morar em Nova Iorque, ter três filhos, com fulano (a) e seremos ricos. Eu sempre escolhia 25 anos, essa é a idade que eu achava que já estaria casado e com filhos.
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Hoje, com quase 30 anos, solteiro, as opções, caso eu fosse fazer essa brincadeira, seriam um tanto limitadas. Acho que eu teria que deixar até alguns espaços em branco. Cidades? Onde será que eu conseguiria um emprego na minha área com uma boa remuneração? Filhos? Será que quero tê-los? Interesse afetivo? Quem? Status social? Que piada! E a pergunta mais capciosa: com que idade vou casar? Será que eu ainda quero me casar? Quando crianças, nosso futuro parece tão vasto e promissor, mas ao longo dos anos nós temos que mudar nossa expectativa conforme a realidade.

Não que isso seja uma coisa ruim. Nós éramos crianças, o que nós sabíamos sobre a vida? O que conhecíamos do mundo? Atualmente, casamento para mim soa como uma brincadeira infantil que ficou no passado. A ideia de filhos me assusta, enquanto a de sobrinhos me deixa ansioso. Consigo pensar em bem mais do que três cidades, mas não para morar, só para conhecer, viajar. Pergunto-me o que o “meu eu criança” pensaria disso, teria eu esmagado seus sonhos ou apenas substituídos por outros sonhos? Ele ficaria feliz como eu acho que sou, com minhas escolhas, com minhas consequências?

Eu teria que explicar para ele que o sentimento de perda, de algo que você nunca teve, passa com o tempo, que na vida, de vez em quando, coisas que pareciam tão importantes perdem o lugar para outras e quando você olha para trás mal consegue se reconhecer desejando o que antes desejava. Você não pode viver a vida muito preso ao passado, ao “e se...”, às vezes, você só tem que deixar para lá. Eu teria que dizer para ele, e para mim aos 20 e poucos anos, que ser solteiro aos quase trinta não é desesperador como costumava ser, que é, na verdade, libertador descobrir depois de tantos anos novas possibilidades para viver.

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