Palavras para você

Há anos eu não lia um livro. Irônico, eu sei. Mas é verdade. Eu e ele nos esbarrávamos por aí. Cidade pequena, amigos em comum. Nas primeiras vezes confesso que eu não havia prestado muita atenção nele, eu namorava. Depois que fiquei solteiro, notei algo doce no jeito dele, o que me deixou intrigado. Mantive minha distância. Como eu explicaria uma aproximação repentina?


Eu tinha que esperar um momento certo. O destino acabou encarregando-se disso em uma viagem de fim de férias para o litoral. Aconteceu como esse tipo de coisa acontece, um amigo em comum faz o convite em uma noite de bebedeira e você usa isso contra ele no dia seguinte de forma que ele não pode voltar atrás, "agora eu tenho que ir", ele iria. Eu tive duas semanas para me preparar para a viagem.

Minutos antes de o ônibus deixar a estação, eu corri até ele, quase ficando para trás. Sentamos longe. Eu tinha comprado minha passagem depois. Tudo bem, eu, por algum motivo, tinha decidido que levaria um livro. Eu leria durante a viagem, sim, meu livro em italiano. Foi uma luta, já que eu sabia aproximadamente dez palavras do idioma, mas estava disposto a aprender de qualquer forma.

Peguei-o olhando para trás algumas vezes, para mim. Mas ele não disse nada, deve ter achado o livro um sinal de soberba. Horas depois, cansado da leitura, comecei a ouvir música. Italiana. Estava obcecado. O ônibus fez uma parada, ele veio até mim, e falou algo, mas eu não escutei, apenas observei seus lábios rosados se moverem enquanto ouvia Coez cantar "volevo dirti tante cose ma non so da dove iniziare", nada pareceu mais apropriado para o momento.

Tirei um dos fones do ouvido, ele entendeu e repetiu, "você não quer comer alguma coisa?". Os dias na praia passaram rápido, como eu suspeitava. Ele mantinha distância, não sei se era por medo ou indiferença. Eu fingia não ligar. Bem, até uma noite em que bebi muito vinho, estávamos sentados na areia conversando sobre astrologia e previsão do tempo, os demais corriam próximo a água quando decidiram voltar na casa para pegar mais bebida.

Eu e ele ficamos lá, ainda sentados no banco de terra, de frente para o mar. Eu não lembro o que me deu, mas enquanto ele falava me inclinei e o beijei, ele retribuiu, ao fim, me olhou sem graça e eu disse "Mi sto innamorando di te", por sorte ele sabe ainda menos italiano do que eu. "O que significa isso?", perguntou. "Não sei, palavras que vi em um livro", respondi.

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