Até a próxima

Depois do beijo voltamos a nos ignorar. Eu fiz o que eu costumo chamar de "punição", quando eu gosto de alguém mais do que deveria tento me privar disso, tentando fingir que aquela pessoa não existe. Eu me tornei mestre nisso desde a adolescência, quando me apaixonei por um colega de classe, ou, pelo menos, eu gostava de pensar que dominava isso, mesmo que fosse em vão. A falsa ideia de controle parecia me acalmar um pouco.
Photo by Paul Gilmore

Eu tinha que voltar para casa. Para o trabalho. Os demais iam ficar por mais alguns dias. Tentei fingir que não ligava, que já estava cansado mesmo do sol, do mar, da praia. Todos estavam sentados na varanda olhando as ondas quando entrei para arrumar minha mala. Enfiei tudo dentro e terminei em segundos, precisava ir embora dali. Depois do beijo eu não sabia ficar próximo dele, não daquele jeito, sem estar... Próximo. Segurando a mala, fui até a porta da cozinha, sem chegar até a varanda.

"Bem, é isso. Tchau". "Mas seu ônibus não sai daqui a algumas horas?", perguntou uma amiga. "É, mas prefiro ir logo e adiantar algumas coisas do trabalho enquanto espero", menti. Tentei não olhar para ele, percebi que ele estava me encarando. "Eu te acompanho", disse ele já se levantando, calçando o chinelo e vestindo a camisa. "Droga", pensei, ao mesmo tempo em que comemorei. Mais alguns minutos com ele. 

O caminho até a rodoviária envolvia alguns obstáculos que seriam parte da minha punição, mas ele estando comigo anularia isso. Primeiro caminhamos da casa até a praça da vila. Lá teríamos que esperar um micro-ônibus que poderia passar nos próximos minutos ou na próxima hora, com destino certo, mas o caminho iria depender do humor do motorista. Conversamos sobre tudo, menos sobre o que interessava. Um dos dois teria que tocar no assunto e nenhum dos dois parecia confiante o suficiente para fazer isso.

"Ele tem que falar", pensei. Não falar sobre o ocorrido era parte da minha punição, eu ainda não tinha me liberado disso. O micro-ônibus chegou. Subimos, conversamos mais sobre nada, o motorista estava com o temperamento afoito, cortou caminho e rapidamente chegamos à rodoviária, duas horas antes do horário do ônibus. Não havia ninguém lá. O único funcionário estava dentro do guichê com as pernas em cima da mesa, inclinado na cadeira, de boca aberta, dormindo.

Fomos até a área de embarque, eu comecei a olhar para a estrutura antiga, tentando evitar olhar para ele. Quando voltei o olhar, vi que ele estava nervoso. Dei de ombros e suspirei como quem não soubesse o que fazer. Ele levantou a cabeça e veio em minha direção com os braços abertos, esbocei um susto, seus lábios tocaram os meus a medida que ele me segurava em um abraço apertado, cheio de paixão. "Por que ele não é sempre assim?", pensei.

Ouvimos o barulho de gente chegando, ele se afastou de mim abruptamente. Logo começou a chegar mais gente na rodoviária e nós voltamos a falar sobre nada. O tempo passou rapidamente e chegou a hora de embarcar. "Agora eu tenho que ir", disse sem saber o que dizer. "Certo", ele respondeu. Ficamos nos olhando por um minuto inteiro. Um pensando cuidadosamente no que diria ao outro, porque provavelmente algo precisava ser dito e foi. Entrei no ônibus e logo ele começou a andar, não olhei pela janela porque não queria vê-lo enquanto eu me afastava, fechei meus olhos e repeti comigo mesmo suas duas últimas palavras "até a próxima".

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