Retrospectiva 2018

Nós já dissemos tanto um ao outro. Ou quem sabe essas conversas tenham sido fruto da minha imaginação. Talvez eu seja o único falando alguma coisa aqui, enquanto você me vê, da cabeça aos pés e até dentro de mim. Coisas que eu não achei importantes o suficiente para esconder e agora, que elas estão escancaradas ao entretenimento de qualquer um, me parecem tão caras, como uma parte crucial de mim, que já não é a mesma coisa.
Fico feliz em ter acreditado que as coisas iriam ficar mais fáceis com o tempo. Que isso tenha me dado força para encarar antes uma das coisas mais difíceis que eu já fiz. Não é simples aceitar a verdade, deixar de acreditar no futuro, deixar o passado ser só passado e seguir aquele instinto de que a escolha certa é a que parece mais impraticável. 
Longe dos olhares de julgamento, admito a mim mesmo: Eu vou lembrar-me de você. E espero que você se lembre de mim. Não porque existe sentimento entre nós, mas porque existiu. Por causa da experiência, pelo que vivemos, pelo o que testemunhamos da vida um do outro. Lembro-me de todos que passaram pela minha vida antes de você e agora você é mais uma lembrança, como eles.

"Estou obcecado", admiti para mim mesmo. Conheço-me e sei como posso ser. Começou despretensiosamente, depois me vi mergulhando cada vez mais nessa história tão envolvente, mas com um final inevitavelmente triste. Minha mãe me alertou sobre isso uma vez, disse que me minha melancolia e minha fragilidade diante da vida a preocupavam. "Sou forte", tentei me defender em vão. Uma mãe conhece seu filho melhor do que ele mesmo.
Mais um começo que parece o mesmo, mas dessa vez é diferente, eu te garanto. Algumas coisas realmente nunca mudam, então qual o sentido em tentar mudá-las? Revolvi me abrir para novas possibilidades, sem saber se elas são boas ou ruins. Apenas aceitar o novo e tudo que ele pode oferecer. Já tenho uma quantidade incontável de dias na minha conta e não pretendo apenas acumulá-los.
Todos conseguem ver o que eu sinto, como se estivesse em um outdoor. É culpa sua, que não me deu tempo para ensaiar uma expressão de perdedor digna, se é que tal coisa exista. Os olhos deles me atravessaram como facas quando você chamou outro nome que não o meu.
Acho que você pode dizer que não fui justo. Te dou isso. Embora eu nunca admita abertamente. A essa altura, não faz mais sentido sair do personagem que ambos vestimos tão bem, tal qual fossem feitos sob medida e como se tivéssemos ensaiado exaustivamente. Cansei desse palco que montei como uma fortaleza.
Ainda lembro daqueles dias em que éramos melhores amigos. Hoje parece uma outra vida, em que eu era outra pessoa, mas quando penso sobre isso é como se você ainda fosse o mesmo. Talvez porque eu não te conheço, mas ainda lembro do seu sorriso e me pergunto se ele continua o mesmo ou se é mais uma coisa que ficou para trás.
Lembro-me das noites de domingo. Quando nos beijávamos e dizíamos "até mais". Quando você ia eu sempre olhava para o céu, contemplando as estrelas, eu sabia quanto tempo demoraria a te ver de novo, só não sabia o quanto iria durar até poder ter seus braços envoltos no meu pescoço novamente.
Você pode ficar comigo, desde que não solte a minha mão quando estiverem olhando. Nós não nascemos com vergonha e não devemos viver nos escondendo de nós mesmos. Ignore os olhares curiosos e eles vão mudar de direção, segure minha mão, acredite em mim.
As luzes da cidade sempre me pareceram um céu estrelado do alto do seu apartamento, as únicas estrelas possíveis nessa metrópole maçante. E isso não é a única coisa que parece celestial daqui. Como quando você me encontra na varanda e me abraça por trás, devagar, porque sabe que eu vou tentar resistir a princípio, e quando eu cedo, você beija minha nuca, o melhor presente por bom comportamento que já ganhei.
Sinto muito em dizer, mas o último romântico morreu. E agora, enquanto o enterram, o ar cheira a pretensão. Talvez nunca tenha sido real, mas eu certamente sentirei falta da tentativa. Nunca me esquecerei de quando ele me disse como o amor era sentido. Nem todos irão sentir falta, mas alguns bons e poucos vão.
Depois do beijo voltamos a nos ignorar. Eu fiz o que eu costumo chamar de "punição", quando eu gosto de alguém mais do que deveria tento me privar disso, tentando fingir que aquela pessoa não existe. Eu me tornei mestre nisso desde a adolescência, quando me apaixonei por um colega de classe, ou, pelo menos, eu gostava de pensar que dominava isso, mesmo que fosse em vão. A falsa ideia de controle parecia me acalmar um pouco.
O sol quase se pondo. Eu dando uma pausa do trabalho. Sentado em dos bancos quentes da praça em um ponto alto do Centro, de onde posso ver quase toda a cidade. Você vira a esquina, tão inesperado e real quanto a vida pode ser. Eu olho uma vez e penso "alguém familiar", em seguida me pergunto como vamos nos cumprimentar, à distância, como dois conhecidos ou trocar um abraço, como dois velhos amigos.
Deitado no chão do quarto encaro a estante de livros. Já li quase todos esses romances. Alguns deles pareciam tão impossíveis, alguns realmente foram. E o que isso tem a ver com a gente? Você me perguntaria, se me visse assim entorpecido nessa superfície dura e fria com nada mais do que questionamentos também. Como eu começo a explicar?
"Me diz alguma coisa", ele disse, olhando para as próprias mãos. Por que ele não me olhava mais no olho? "Estou desistindo de nós", foi a frase dita antes, que ainda ecoava na minha cabeça, então é você que está desistindo? Perguntei-me, cansado. O quarto parecia menor, sufocante, esmagador. O instinto era de correr, sobrevivência, mas algo ainda me prendia ali e eu sabia muito bem o que era.
Às vezes estou com você ou sozinho e penso que não há nada melhor do que essa sensação de tranquilidade que a gente tem. Desse nosso sentimento que traz paz, que faz com que nos sintamos em casa, à vontade. Mas existe sempre algo que me puxa de volta, que faz com que eu questione e revise tudo isso na minha cabeça, como uma questão de física da qual esqueci a fórmula e me perdi no meio do cálculo.
Me deixa voltar
A última talagada na garrafa de vinho me deu a coragem que eu precisava para fazer algo que eu quis fazer a noite inteira. Com um dos olhos fechados, tateio desastradamente o celular, confiando que não vou precisar lembrar tudo, que o dispositivo eletrônico vai me ajudar a completar seu número, que ainda vive no meu histórico de chamadas.
Palavras para você
Há anos eu não lia um livro. Irônico, eu sei. Mas é verdade. Eu e ele nos esbarrávamos por aí. Cidade pequena, amigos em comum. Nas primeiras vezes confesso que eu não havia prestado muita atenção nele, eu namorava. Depois que fiquei solteiro, notei algo doce no jeito dele, o que me deixou intrigado. Mantive minha distância. Como eu explicaria uma aproximação repentina?

E se eu nunca mais me apaixonar?
Antes de se levantar e seguir seu caminho, fechar a porta e pôr um fim na gente. Eu te peço que olhe para a pessoa deitada aqui ao seu lado, veja que sou alguém que costumava te fazer sorrir e que em algum momento você pensou que amava, então imploro que seja gentil. Eu esperei muito tempo para viver o que nós vivemos e quais são as chances que eu viva novamente? Eu não acho que eu possa, mesmo que eu queira novamente, algum dia. 

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